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O Atendimento Psicopedagógico

O Atendimento Psicopedagógico

Quem ensina e quem aprende:

Quem ensina e quem aprende:

28 de maio de 2015

O JOGO LINGUÍSTICO


BRINCANDO COM AS HIPÓTESES DAS CRIANÇAS
ORIENTAÇÕES  PARA O TRABALHO COM A LINGUAGEM ESCRITA EM TURMAS DE CRIANÇAS DE SEIS ANOS DE IDADE  
O Jogo Linguístico é uma atividade didática que tem como objetivo estimular o processo de compreensão por parte das crianças acerca da língua escrita enquanto sistema de representação. Apesar de ser um procedimento de ensino que emprega uma estratégia lúdica, não pode ser visto apenas como um “jogo de brincar”. O Jogo Linguístico exige um rigoroso processo de planejamento por parte da professora. A organização metodológica do jogo, o roteiro prévio a ser elaborado, a rotina com que é proposto em sala de aula, a sequência e a progressão que caracterizam o seu encaminhamento junto às crianças, a avaliação e o registro são elementos fundamentais que devem fazer parte do planejamento pedagógico desse jogo.
A proposta baseia-se na ideia de que a tarefa de analisar palavras orais e escritas deve propiciar ao aprendiz um trabalho cognitivo que o leve a comparar, identificar e classificar as unidades sonoras e gráficas que constituem as palavras, e compreender as regras de funcionamento do sistema de escrita, aplicando-as em suas práticas de escrita. Outra ideia que orienta o encaminhamento do Jogo Linguístico junto às crianças diz respeito à necessidade de se promover a interação entre as crianças para que elas tenham oportunidade de socializar e refletir sobre as hipóteses que constroem ao longo do processo de aquisição da língua escrita. Durante a realização do Jogo, a professora faz perguntas sobre a escrita de palavras, considerando o conhecimento que cada grupo tem a respeito do funcionamento do sistema de escrita. Essas perguntas geram “problemas” a serem resolvidos cooperativamente entre os membros de uma equipe. Desta forma, elas estimulam as crianças a refletir sobre conflitos que integram o aprendizado da língua escrita. Ao mesmo tempo, é importante assegurar que as regras sejam respeitadas e que os integrantes das outras equipes respeitem o processo e a capacidade das demais equipes. Como veremos a seguir, o Jogo Linguístico não apenas respeita a heterogeneidade da classe em relação à apropriação do sistema de escrita, mas, sobretudo, faz dessa heterogeneidade um pressuposto para a realização da atividade.
METODOLOGIA DO JOGO LINGUÍSTICO
O jogo linguístico segue três etapas:
1. O planejamento por parte da professora;
2. A realização do jogo com as crianças;
3. A avaliação do desempenho demonstrado pelas crianças ao longo do jogo.
ASPECTOS PRESENTES NO PLANEJAMENTO
Primeiro aspecto: avaliação diagnóstica
Para planejar o jogo, é preciso que se realize uma avaliação diagnóstica junto às crianças para identificar o nível conceitual em que se encontram. A professora deverá realizar com cada criança atividades de escrita espontânea a fim de diagnosticar seu nível de escrita. Esta etapa é fundamental para a realização e o sucesso do Jogo. Para maior precisão do diagnóstico, é importante que seja solicitado às crianças que escrevam palavras com sílabas canônicas e palavras com sílabas não canônicas.  
Segundo aspecto: divisão das equipes
A partir do diagnóstico, a professora deverá dividir a turma em três equipes de acordo com os níveis conceituais das crianças em relação à língua escrita. Provavelmente, o número de crianças para cada equipe será diferente. Esta situação não afetará a realização do Jogo. Não há regras rígidas para a organização da turma em equipes, pois a composição das equipes vai depender das características dos alunos e da turma como um todo em relação à apropriação do sistema de escrita. O importante é constituir cada equipe com crianças cujo nível de escrita seja o mais próximo possível, favorecendo que o conflito gerado pela pergunta do jogo seja um desafio para todas as crianças da equipe.
 Terceiro aspecto: definição do momento do Jogo
É necessário planejar um tempo na rotina diária semanal para a realização do Jogo. Após algumas aulas realizando o Jogo, as crianças adquirem autonomia e o Jogo ganha agilidade. O tempo médio de duração deverá ser de 20 minutos.
Quarto aspecto: o roteiro de perguntas
A professora deverá elaborar um roteiro com três perguntas a serem propostas para cada equipe.
Exemplo:
Tem MA ou FA na palavra MATA?
Tem BO ou CO na palavra COLA?
Tem JU ou LU na palavra CAJU?o
O planejamento prévio das perguntas é um fator muito importante para o sucesso do Jogo em sala de aula. A elaboração adequada destas perguntas é a ESSÊNCIA do Jogo Linguístico. Essa elaboração vai depender, em primeiro lugar, da representação que a professora tem sobre o que sabe uma criança alfabetizada – seu entendimento sobre quais seriam as capacidades, as vivências e o valor assumidos por uma criança que domina a língua escrita. E, em segundo lugar, vai depender da identificação que é feita por ela do nível conceitual em que as crianças se encontram – resultado da análise das produções das crianças em sala de aula e na avaliação diagnóstica.
ORIENTAÇÕES PARA ELABORAR AS PERGUNTAS DO JOGO
1. Grupo de crianças que demonstram hipótese pré-silábica
Para o grupo de crianças que demonstram hipótese pré-silábica em suas escritas, as perguntas devem abordar a correspondência entre a fala e a escrita no nível da sílaba. Nesta fase do jogo, deve-se iniciar o trabalho com as sílabas iniciais, depois as finais e, por último, as mediais. Correspondências a serem exploradas nas perguntas dirigidas a esse grupo de crianças:
        P, B, F, V, T, D, R, L, M, N, X e Z (acompanhadas de vogais)
        S, C, J, e G (acompanhadas das vogais A, O e U)
        Trabalhar com sílabas canônicas ou regidas por regras contextuais.
Aos poucos, a professora deve introduzir as perguntas que exploram pares de sílabas que permitam o trabalho das crianças com as consoantes surdas e sonoras, consoantes nasais e outras.
Veja os pares abaixo:
        F/V
        T/D
        P/B
        X/Z
        M/N
        C/G
        C/S
        G/J
2. Grupo de crianças que demonstram hipótese silábico-alfabética e alfabética
Para o grupo de crianças que demonstram hipótese silábico-alfabética e alfabética em suas escritas, as perguntas devem abordar a correspondência entre a fala e a escrita no nível da relação letra/som.
Primeiro exemplo:
Tem a letra B ou P na palavra CAPELA?
Tem a letra C ou G na palavra LAGOA?
Tem a letra H ou G na palavra GAROTA?
Tem a letra N ou M na palavra CAMISA?
Segundo exemplo - perguntas para os alunos perceberem as marcas da nasalidade (“N” no final da sílaba), do “R” no final de sílaba, do “S” no final de sílaba e do “NH” e “LH”:
Tem ou não tem a letra “R” na palavra CARTA?
Tem ou não tem a letra “N” na palavra PONTE?
Tem ou não tem a letra “S” na palavra PASTA?
Tem ou não tem as letras “LH” na palavra TELHADO?
Correspondências a serem exploradas nas perguntas dirigidas a esse grupo de crianças:
        B, C, D, F, G, J, L, M, N, P, R, S, T, V, X, Z;
        Dígrafos LH e NH;
        R” no final de sílaba;
        S” no final de sílaba;
        N” no final de sílaba.
3. Grupo de crianças que demonstram compreender a natureza alfabética da escrita e em processo de domínio da ortografia
Com relação ao grupo de crianças que demonstram compreensão da natureza alfabética do sistema de escrita, tem-se como meta o domínio progressivo da ortografia. Para esse grupo, as perguntas devem abordar as correspondências regulares.
Exemplo:
Tem um “R” ou dois “RR” na palavra BARRO?
Tem um “R” ou dois “RR” na palavra RODA?
Tem um “R” ou dois “RR” na palavra CARACOL?
Tem as letras “QU” ou “GU” na palavra FOGUETE?
Tem as letras “QU” ou “GU” na palavra QUILO?
Tem “M” ou “N” na palavra CAMPO?
Tem “M” ou “N” na palavra JARDIM?
Tem um “S” ou dois “SS” na palavra PÁSSARO?
Tem um “S” ou dois “SS” na palavra ROSA?
Correspondências a serem exploradas nas perguntas dirigidas a esse grupo de crianças:
        Sons do “R”;
        Dígrafos “QUA”, “QUE”, “QUI”, “GUA”, “GUE”, “GUI”;
        Sílabas “GE” e “GI”;
        Nasalidade;
        S” e “SS” entre vogais.
Depois de elaboradas as perguntas, a professora deve organizar um roteiro que oriente o encaminhamento do Jogo em sala de aula.
REALIZAÇÃO DO JOGO
Primeiro passo: organização da turma
Organizar a turma conforme os três grupos previamente definidos, a partir do diagnóstico do nível de escrita de cada aluno. Para a realização do Jogo, os alunos da mesma equipe devem estar próximos. Conforme a disponibilidade de espaço na sala de aula, o Jogo poderá ser realizado com as crianças sentadas no chão, em rodinha ou nas mesinhas dispostas para o trabalho em pequenos grupos. Isso facilitará a interlocução das crianças em torno da pergunta feita para sua equipe.
Segundo passo: registro no quadro da sala
Dividir o quadro em três colunas. Cada coluna recebe o nome de uma equipe. Assim que a turma e o quadro estiverem organizados, dar início ao Jogo. De acordo com o planejamento previamente realizado, fazer as perguntas para os alunos. Inicia-se com a pergunta para a equipe A, ou seja, dirige-se à equipe dos alunos com menor conhecimento sobre a escrita. (Vamos imaginar que a equipe A desta turma seja composta por crianças que revelaram hipótese pré-silábica na produção escrita do diagnóstico). Ao fazer a pergunta para a equipe A, a professora registra no quadro as opções de resposta.  As crianças da equipe devem se reunir e trocar pontos de vista sobre a pergunta proposta. Após essa troca, a equipe apresenta a sua resposta por consenso ou opinião da maioria. Depois que a equipe expõe sua resposta, a professora solicita a toda a turma que ajude a escrever a palavra. As crianças soletram enquanto a professora registra a palavra no quadro, no espaço apropriado. A resposta final da equipe é que determinará a pontuação, sendo 1 ponto para acerto e 0 para erro. Assim que a 1ª pergunta estiver respondida e corrigida, segue-se com uma pergunta para a equipe B (alunos com conhecimento intermediário) e, por último, para a equipe C (aluno com maior conhecimento). Assim que as três equipes tiverem participado, a primeira rodada é finalizada.
Dar continuidade ao Jogo, realizando a segunda rodada da mesma forma que a primeira e, assim, sucessivamente, até completar a terceira rodada. Ao final do Jogo, terão sido realizadas nove perguntas, sendo três perguntas para cada equipe.
Vence a equipe que obtiver o maior número de pontos ao final do Jogo. Terminado o jogo, nove palavras estarão registradas no quadro. Os alunos fazem a leitura e a cópia de todas as palavras no caderno.
AVALIAÇÃO
Durante a realização do Jogo, é importante que a professora faça intervenções junto aos alunos para garantir que as regras sejam cumpridas, assegurando o sucesso da atividade: o aprendizado do aluno. Nas primeiras vezes em que o Jogo é realizado, as intervenções são mais frequentes. Com a constância da atividade na rotina de trabalho, as crianças se habituam às regras e tornam-se mais autônomas. Vale lembrar que, por se tratar de uma atividade lúdica, as crianças gostam de participar e cooperam com o trabalho, favorecendo o aprendizado. Após o Jogo, a professora deve refletir sobre o desenvolvimento da atividade, redirecionando o planejamento do Jogo nas próximas vezes em que for realizado:
        A pergunta dirigida à equipe ofereceu desafio a todos os alunos? Em caso negativo, o aluno pode passar a integrar uma equipe mais desafiadora (com maior conhecimento sobre a escrita);
        As perguntas foram muito difíceis para cada equipe? Em caso afirmativo, a professora deve ficar atenta ao elaborar as perguntas para o próximo Jogo.
        Todas as equipes estão tendo oportunidade de vencer o Jogo? Em caso negativo, a professora deve reorientar as perguntas que vêm fazendo para as equipes, no sentido de possibilitar que todas vençam (não fazer
sempre perguntas muito difíceis para a mesma equipe).
        Periodicamente, a professora deve reavaliar o nível conceitual dos alunos, monitorando a evolução e reorganizando as equipes e as perguntas a serem feitas. Por exemplo, a professora deve ficar atenta ao momento em que o jogo deve mudar da sílaba para a letra.